domingo, 11 outubro , 2026

Por quem Vale Torcer

O dia era 12 de julho de 1998. 

 

Nossa casa estava preparada para a final da Copa do Mundo. Vesti meus filhos com roupas customizadas, o que na época era uma novidade. Convidei os amigos deles, reuni a família e enchi a casa de crianças para torcermos pelo Brasil. Balões, bandeiras, quitutes… tudo em verde e amarelo. 

 

E, no final daquele dia, presenciei uma das cenas mais tristes que uma mãe pode ver. 

 

Depois da derrota do Brasil, vi meu filho olhando, incrédulo, para a televisão. Tinha apenas sete anos.  

Confesso que teria sido mais fácil vê-lo berrando de raiva, reclamando dos jogadores, culpando o técnico ou chutando uma almofada pela sala. Mas não foi isso que aconteceu. 

O que eu vi foi uma criança sofrendo de verdade. 

Vi um coração pequeno sendo atravessado por uma dor enorme. Vi um sonho que ele acreditava ser seu se desfazer diante dos seus olhos. Vi uma decepção que nenhuma explicação resolveria naquele instante. 

Naquele momento, eu só podia fazer duas coisas: abraçá-lo e acolhê-lo. 

 

As meninas logo voltaram a brincar, cantar e correr pela casa, como se aquela derrota tivesse ficado para trás. Mas Caio permaneceu sentado, em silêncio, por muito tempo.  

 

E foi naquele dia que compreendi uma das grandes responsabilidades de quem educa. 

 

Não era sobre futebol. 

Era sobre ensinar uma criança a lidar com frustrações. Sobre mostrar que nenhuma derrota esportiva define quem somos. Sobre ajudá-la a entender que existem dores que não merecem ocupar tanto espaço dentro de nós, principalmente quando nada acrescentam à nossa vida além de sofrimento. 

 

O dia era 3 de julho de 2026. 

 

Vinte e oito anos depois daquela tarde inesquecível, eu estava novamente diante da televisão. Era Copa do Mundo. 

Do outro lado da tela, Cabo Verde enfrentava a Argentina. 

Meus filhos já eram adultos, cada um em sua casa, trabalhando. E eu percebi que fazia exatamente vinte e oito anos que eu não torcia com tanta intensidade por uma seleção. 

Mesmo admirando a raça da Argentina e a genialidade de Lionel Messi, meu coração escolheu outro lado. 

Escolheu Cabo Verde. 

Talvez porque eu tenha crescido numa casa onde futebol era quase uma religião. Meu pai era apaixonado pelo esporte e eu aprendi admirando jogadores que vestiam a camisa por amor, que pareciam compreender o privilégio de representar um povo inteiro. 

Mas o que vi em Cabo Verde foi diferente. 

 

Vi homens que carregavam muito mais do que uma camisa. 

Carregavam histórias. 

 

Durante décadas, aquela seleção foi tratada como pequena, modesta, sem tradição. Vinha de um país pequeno, formado por ilhas espalhadas no Atlântico, com limitações econômicas e enormes desafios sociais. 

Ainda assim, chegou onde quase ninguém acreditava. 

Com disciplina, organização, coragem e uma entrega que não se ensina em escolinhas de futebol. 

Tornou-se um dos menores países do mundo, em população, a disputar uma Copa. 

Na competição, honrou o apelido de Tubarões Azuis. Fez um jogo heroico contra a atual campeã Argentina e saiu da Copa levando algo que nenhum placar consegue medir: o respeito do mundo. 

Ali não estavam apenas jogadores. 

Estavam homens acostumados a vencer dificuldades antes mesmo de entrar em campo. 

Como o goleiro Vozinha, que emocionou o mundo ao lembrar da mãe, impedida de assistir à sua estreia porque não tinha dinheiro para pagar a caução exigida. Um homem que, até pouco tempo antes da Copa, dividia os treinos com o trabalho de eletricista para sustentar sua família. 

Como não torcer por gente assim? 

Eu torço por quem transforma obstáculos em combustível. 

Torço por quem conhece a fome de oportunidades e, ainda assim, escolhe a dignidade. 

Torço por quem nunca recebeu facilidades, mas nunca perdeu a coragem. 

Cabo Verde fez muito mais do que disputar uma Copa. 

Fez o mundo descobrir um pequeno arquipélago de ilhas vulcânicas que muitos sequer saberiam localizar no mapa. 

Fez milhares de pessoas olharem para além do futebol. 

 

Eu sorri, gritei, chorei. 

E assisti, talvez, ao jogo mais bonito desta Copa. 

 

Porque, às vezes, o maior vencedor não é quem levanta a taça. 

É quem consegue fazer o mundo acreditar que tamanho nunca foi sinônimo de grandeza e olha que disto aqui em casa entendemos bem.. 

Aliás, o futebol de Cabo Verde se agigantou de tal forma que ficou maior do que a própria Copa. 

 

O dia era 5 de julho de 2026. 

 

O Brasil foi eliminado pela Noruega. 

E, curiosamente, não senti a dor que vi nos olhos do meu filho vinte e oito anos atrás. 

Talvez porque o tempo nos ensine a separar paixão de sofrimento. 

Talvez porque existam derrotas que passam e outras vitórias que permanecem. 

A de Cabo Verde permanecerá. 

Porque ela não foi construída apenas com gols. 

Foi construída com caráter, perseverança e esperança. 

E essas sempre serão as vitórias pelas quais vale a pena torcer. 

 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

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